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Wednesday, June 27, 2012

Calmaria

A solidão já não importa mais. Se puder hibernar, será isso que acontecerá, além de qualquer vontade. As vontades chegam e passam, como pensamentos, sem provocar nenhuma reação ou atitude. E as horas passam. Nunca vi tanta tv, quase que os programas em sequência. Dormir, ver tv... Esquecer da vida. Dessa coisa séria que precisa (precisa?) ser enfrentada todas as manhãs. Manhã, aliás, é algo abstrato, que desconheço. Não sei o que é acordar de manhã, não sei o que é viver de manhã. O dia só começa à tarde, quiçá à noite. Sempre foi assim. Desde criança. Claro que trabalho de manhã. Mas é estranho, é diferente, parece outra dimensão. Sempre brinco que não atendo o telefone de manhã pq ou estou trabalhando ou estou dormindo - a única outra opção possível. Não é que eu não goste da manhã. Quando acordo por algum motivo e vejo uma manhã de sol brilhar, ou uma manhã de chuva aconchegar, sinto algo bom dentro de mim. E volto a dormir, pq não sei o que fazer com as manhãs. Assim como a maioria das pessoas não saberia o que fazer com a madrugada. Já me perguntaram: mas o que é que vc fica fazendo de madrugada? Tenho vontade de perguntar, com a mesma sensação de estranhamento e curiosidade: mas o que é que vc fica fazendo de manhã?

Passei dias quase apática. Quase. A imagem que me vem à mente é a do mar no posto 6 em Copacabana, aquela água calma, quase sem ondas, que vc pode passar horas olhando, que traz paz junto com a maresia. Passo horas dormindo, depois vendo tv, e o dia passa. Os dias passam. Foi bom ficar assim, como se nada agitasse meu mar calmo. A ansiedade foi tão extrema que essa calmaria chegou e não me preocupei. Deixei-a chegar, tomar conta, e descansei de todo esforço que fiz pra sair de tanta intensidade de sentimento. Nada abalava isso. Gostei e quis viver aí. Por isso ficar dias em casa, coisa impensável antes, se tornou até natural. Sair se tornou penoso. E estou falando de diversão, pq envolve muitas coisas. Ir trabalhar deixou de ser penoso e passou a ser um espaço onde me sinto útil ao mundo. E volto leve, menos cansada. Vida normal, rotina, coisas que trazem calma. Deixei-as tomarem conta totalmente. Compreendi dessa forma e consegui até explicar o que a olhos menos atentos poderia parecer uma depressão.

Contudo, isso é uma fase consecutiva à fase da ansiedade, complementar a meu ver. E sendo uma fase, vai passar. Que seja devagar esse movimento. Fiz algumas coisas no segundo feriadão do mês. Me forcei a ir. Por mim vinha pra casa dormir e ver tv. Me forço pq sei que ao fazer algo que gosto, voltarei melhor e mexerei nessa calmaria que tem sua hora, seu tempo.

Esse momento ainda é muito forte, mas já perde sua intensidade, me inquietando um pouco. Não sei o que fazer com o retorno, ainda que suave, dos sentimentos. Não sei como lidar com meus sentimentos dentro de mim. É o que vou trabalhar agora. A vontade agora não é mais somente um pensamento. Ela quase me faz levantar. Está chegando a hora.

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