Carta aberta ao Sr. Prefeito Eduardo Paes
Prezado Senhor Prefeito da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro Eduardo Paes e demais autoridades,
Amo este lugar. Nasci aqui. Na sexta-feira, estive no samba na Pedra do Sal, lugar mágico. No sábado, precisei ir a um lugar que ficava próximo, mas nem uma amiga que mora no Morro da Conceição conseguiu me dizer onde era. Também não conseguiram nos ajudar os organizadores do trânsito que foram colocados ali - para ajudar. Pelo simples motivo de que eles não moram ali. Pedi que meu pai me acompanhasse, pois ali é um lugar perigoso, como é de conhecimento de todos. Meu pai, com 78 anos, andou comigo por duas, eu disse duas horas, procurando o tal lugar. Encontramos.
Tomo remédio para cuidar da ansiedade, mal dos tempos modernos. Sou professora do mesmo município que os senhores administram. Cuido-me no posto de saúde Heitor Beltrão, no bairro onde moro, Tijuca. Desde agosto não consigo uma consulta para obter a receita do remédio controlado que tomo, posto que tenho que trabalhar - tenho que ir para uma das escolas do município trabalhar - nos horários em que a médica está no posto. Enquanto isso, peguei receitas do remédio com médicos particulares. A senhora Malvina, que é alguém aparentemente da chefia do referido posto de saúde, me encaminhou para este lugar, na Praça Coronel Assunção. Ninguém conhece o lugar. A senhora mencionada me encaminhou para este lugar para que eu pudesse pegar o remédio gratuitamente, visto que receitas de médicos particulares não são aceitas no posto de saúde. No entanto, a médica particular que cuidava de mim ficava ao lado de uma das escolas em que trabalhei. Era bem mais fácil falar com ela, que me atende até gratuitamente, o que não acho justo. Fui então, em busca deste lugar. O atendimento foi ótimo, mas eu já estava muito ansiosa, nervosa, depois de andar tanto, perdida, vendo mil obras para o Porto Maravilha, que como disse minha amiga que mora lá, só saberemos se será uma Maravilha ao término das obras, sabe Deus quando. Por enquanto, ela apenas deixou de ter o ônibus que a deixava próxima à subida para sua casa. E eu, que gosto de samba mais do que o senhor, também deixei de ter o ônibus que me deixa próximo a ele. Tenho que andar até lá, passando por crianças abandonadas e mendigos. Pobres coitados produzidos pela sociedade que o senhor administra atualmente.
Como dizia, o atendimento foi ótimo, até o médico dizer que NÃO HAVIA REMÉDIO PARA ME DAR. Eu, como educadora, formada em Letras, tendo tido acesso ao melhor que há neste sentido, sempre com minha mãe trabalhando muito e meu pai vivendo com uma aposentadoria com a qual nenhum dos senhores conseguiria viver, lutei comigo mesma para não ter ali uma crise. Analisei os fatos, comparei as prioridades das obras, das necessidades da população.
Ao ver seus comentários e fotos hoje no twitter, sr. prefeito, quis poder falar-lhe de alguma forma. Quis que isto se tornasse de conhecimento geral, visto que não o é. Queria que a senhora Malvina fizesse, de ônibus e a pé, o caminho que fiz até este lugar, para pegar o remédio que preciso e não o encontrasse. Queria que ela pensasse no próximo e apenas falasse com a médica do posto que preciso da receita. Conseguir a receita é fácil, isso também é de conhecimento geral. Mas eu tive que fazer todo esse caminho à toa. Talvez possa consegui-lo no posto agora, talvez não. Talvez na farmácia popular. Sou professora do município, não tenho condições de comprar o remédio. Mas também não tenho condições de passar por tudo isso. Prefiro pagar e depois viver da bondade alheia. Gostaria que o senhor também tomasse conhecimento disso.
Espero poder continuar meu tratamento no posto de saúde onde já me cuido na homeopatia e na psicologia, áreas maravilhosas que sempre cuidaram de mim de forma impecável. Também espero conseguir um trabalho que complemente o meu, para que eu possa comprar meu remédio, enquanto dele precisar, sem tanto estresse. Tomo o medicamento por conta de tanto estresse. Contraditório, não? Também, mas eu diria mais: enlouquecedor. Como disse à senhora Malvina, sofro de uma ansiedade extrema que me leva a precisar deste remédio agora, mas não sofro de burrice.
Aguardo, também, providências das autoridades competentes. Eu cuido dos meus adolescentes. Queria saber quem vai cuidar de mim. Sinto-me abandonada. Foi como voltei ontem, andando com meu pai, chorando pelas ruas.
Atenciosamente,
Patrícia Serrano Tavares

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