Minha Flor, meu Chico.
Lembrei que também gosto de escrever. Mas só sei fazer isso em prosa, ainda que sinta profundamente, como na poesia. Pq em meu coração "não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo.
Por isso me grito"
No último post, não sabia que dali a uma semana eu perderia a minha menina Flor de forma trágica. Me recuperava depois de 2 meses sem meu pai, tentando seguir, conseguindo, até levar essa porrada. Dilacerante, insuportável.
Qual era o sentido agora? Eu era a (ir)responsável, a culpada. Não merecia mais nada de bom. No entanto, havia o Chico, meu menino levado. Ele precisa(va) de mim, tão assustado, sozinho de novo, como eu. Se eu enlouquecesse, meu irmão cuidaria dele, mas ele não merecia ir para uma casa com vários gatos, ele que é tão assustado e reativo. Foi assim que me mantive trabalhando (outra coisa que voltei a fazer esse ano) e cuidando dele, porém ainda havia o peso que estava sendo e eu precisava não ser um peso para ninguém. Qual o sentido da vida se não o de não ser peso, minimamente? Assim, segui. E assim fui pro samba esquecer da vida, pra poder suportá-la. E assim lembrei, ainda que com remorso, que a vida pode ser boa. Então começaram as festas juninas e, como de costume, fui a todas possíveis. Percebi que para não ser peso, precisava da arte, da dança, da beleza, pois são essas coisas que vão deixando a vida leve, ou menos pesada.
5 meses sem ele, 3 sem ela.
Mas eu vim mesmo escrever porque me lembraram como é bom e bonito. Conheci textos bonitos, histórias em forma de poema, que me lembraram o que aprendi sobre literatura brasileria contemporânea, que é tão interessante quanto os clássicos.
Parei a monografia. Tentei seguir, mas não con-segui. Não pude seguir com isso por agora.
Hoje, começo a querer ler novamente. Começo a querer amar de novo, ser acarinhada, desejada, transar, essa coisa tão boa e libertadora, ainda que, sendo hétero, esteja bem difícil.
Porque a vida vale no que vale para cada um, não no que dizem que vale. Vale dormir até cansar, viver prosaicamente como uma aposentada, regando as plantas que herdei do meu pai, dançando, curtindo, saboreando, sentindo, que é o que acontece quando a vida permite. Que é a própria vida, na sua substância. Depois de tanta dor nesse 2026, me pergunto se esse respiro durará o suficiente. Ainda preciso me mudar, ainda preciso de outro trabalho, ainda preciso deixar de ser peso. Devagar, no meu ritmo - contrário ao ritmo do mundo, pois "Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim um atraso de nascença."
Só os poetas, aqui Drummond e Manoel de Barros, me entendem e me traduzem pra mim mesma, e dessa forma me acalmam e ninam. Sou ainda aquela menina, dou a ela tudo que posso e que ela sequer sonhou, o que pode ser pouco diante dos desejos do mundo, sempre tão materiais. Mas a mulher que me tornei, da qual quase me orgulho, pode enfim cuidar dela, de si, do Chico, da companhia que ansiosamente espero trazer pra ele, das crianças na escola...
E ao poder cuidar de mim, queria poder ser cuidada também, ainda que por momentos efêmeros. O instante é valioso, e por isso queremos tanto capturá-lo, repeti-lo, registrá-lo em texto, em pintura, em escultura, em fotografia. Momento efêmero parece um pleonasmo.
É sempre bom lembrar o gosto que tem a felicidade.
Hoje é Dia Zero, o dia fora do tempo. Tempo em suspenso. Que minha vida recomece.

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