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Friday, October 21, 2022

Desentendimento

 Assim que a cuidadora saiu, chegou a solidão. Deve ter entrado e nem percebi, mas foi só fechar a porta e sentir sua presença avassaladora, assustadora e dolorosa. Meio prazerosa tb. 

Desde o dia 5 acho que não sentia isso, o dia da milésima queda com delírios do meu pai. Dessa vez, com uma fratura vertebral de brinde. Os meses têm sido difíceis, os anos, as semanas, os dias, as noites, as horas, sem privacidade, ou ela ou a solidão. Oscilo entre querer as duas, entre não querer nenhuma, entre querer sumir e querer encontrar com quem formar uma família, algo que me dê uma segurança que nunca tive, nunca me deram, tive e tenho que viver e ser forte, eu por mim mesma. Não tem Deus, não tem amigo, ah enfim, o de sempre. Esse sempre que não quero mas não me larga, ou eu não largo, tamanho o medo de que as coisas sejam piores e que a solidão seja minha única alternativa, como se já não estivesse instalada aqui há tantos anos. Só tinha esquecido ou deixado de senti-la durante dias duros de hospital, cuidado com os outros, exaustão. Queria um pouco minha casa de volta, e assim que a cuidadora saiu era isso que queria sentir. Senti um pouco e depois percebi o quanto a vida tem me fugido das mãos. Dói.

Penso em pra que viver tão infeliz. Pior, se há outro modo de viver. Nunca conheci. Sonho com o que vejo as pessoas viverem, terem a quem recorrer, encontrarem colo, segurança, aconchego. Vejo que isso tudo existe, mas lá longe, bem distante, para os escolhidos de Deus.

Olho pros meus gatos dormindo aqui na minha frente, na minha cama. Só assim sei o que é o amor numa sexta à noite em que há festa lá fora e comemoram aniversários. Queria comemorar tb. 

Um desentendimento com minha psicóloga me tira o pouco chão que me resta. Aguça o abandono e a rejeição que, apesar de conhecer tão bem, doem demais. 

Penso onde isso tudo vai dar...

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