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Monday, April 08, 2019

Tirando a poeira da alma.

Hoje a faxineira veio, pela primeira vez no ano. Ainda não poderia vir pq a grana tá cada vez mais curta, sendo engolida, devorada pelos juros do banco, mas não aguentava mais a casa no mais absoluto caos. Eu tenho uma imensa dificuldade para fazer qualquer coisa em casa por conta de ter meu pai morando aqui e fazendo a zona que sempre fez a vida inteira com a minha mãe. Coisas surreais, das quais eu tenho vergonha. Não tenho marido nem filho, em compensação tb não tenho uma casa minimamente apresentável pois ele é os 2 ao mesmo tempo, sem na verdade ser nenhum.

A Rose vem e eu vejo as dificuldades de quem tem dificuldade de verdade de perto. Mulher negra, favelada, com uns 9 filhos: um bandido morto, outro preso, outro saiu... A filha com 3 filhos... A vida pode ser muito dura.

Às vezes consigo agradecer por todo o pouco que tenho, segundo o nível das pessoas que conheço e frequento. Tenho onde dormir, apesar de a cama estar com sérios problemas. Há quem não tenha nem o teto, nem a cama. Gastamos bastante com comida, sempre tentando agradar o gosto daquele que quando vivia sozinho, comia UMA marmita pro almoço e pro jantar. Duvido que sobrasse algo. Agora, joga fora. 

Às vezes não consigo me contentar e fico triste como hj. Pq acabamos falando que levei mais de 3 meses pra chamar a Rose de novo pq a situação tá crítica, e eu queria poder ajudar dando o trabalho que não tolero fazer, mas não tenho como pagar. Estou aos trancos e barrancos conseguindo trabalhar os 3 dias semanais da carga horária, saindo exausta por tentar não só fingir que tô lá.

Engraçado como mesmo tendo saído ontem, tocado, dançado, curtido, não adiantou. Tem dias em que nada adianta. A gente vê na hora, não rola aquela catarse. Fica ali uma coisa meio mecânica, enqto eu penso no aumento do aluguel sobre o qual não tenho forças para discutir. Olho ao redor e vejo pessoas super jovens com a vida ganha... E eu aqui quase sem sair do lugar. Hoje entendo que a origem dessas pessoas, e a minha, determinam muita coisa. E me sinto menos culpada, menos só, e MUITO solidária com quem está no mesmo nível socioeconômico, ou menor, que eu. O que faz toda a diferença na minha vida e nas minhas lutas diárias.

Espero que as coisas melhorem em algum aspecto, que seja na rápida passagem dessa tristeza, que seja no prazer da expressão artística, que seja conseguindo outro trabalho pra somar com esse, sei lá. Espero realmente daqui a um tempo ter boas coisas para contar. Por enquanto, aquele ditado que eu nunca tinha entendido se encaixa perfeitamente: o que não tem remédio, remediado está.

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