UM ANO.
Ausência. Buraco. Vazio. Falta. E uma palavra que só existe nesta língua linda: saudade. Isso tudo dói. Há um ano atrás, por volta das 19h, visitei-a no CTI pela última vez. Foi a última vez que a vi viva, respirando, mas sabia, pelo que via com os olhos do corpo e pelo que sentia com o coração, que ela não estava mais ali. Ou não estaria em breve. Que estava se desligando. Podia sentir. Sabia de coisas e falava coisas com tamanha naturalidade e serenidade, como se não fosse eu, mas era. Este último dia não foi de alívio. Talvez eu soubesse do fim. E na Lagoa, por volta deste horário, quase tocando meus pés na água, ouvi uma mulher tocando sambas que falavam de tristeza e saudade, e chorava. Eu sabia quem era a mulher sem nunca tê-la visto. Sentamos num quiosque, numa mesa de número 19. Só me lembro de ter visto, apontado e dito: "é amanhã". Com a tal naturalidade e serenidade. Nesta última noite não foi fácil voltar pra casa. Mas é incrível como surgem anjos e te levam nos braços. Passei a madrugada no telefone com uma amiga enfermeira conversando sobre tudo que acontecia. Horas. Depois, não consegui dormir. Acho que nem tentei. Todo dia 6h30 eu ligava para o hospital para saber como tinha sido a noite. Os médicos trocavam o plantão às 7. Eu a visitava à noite, falava com o médico e ligava de manhã antes dele sair. 6h30 e eu não tinha dormido, liguei. Médicos ocupados. 15 pras 7 também. 7 horas, ainda. Deitei na minha cama e já com sono, liguei pela última vez às 7h15. Ainda ocupados. Com certeza algo acontecia com algum paciente. Pensei: vou ligar 7h30, mas dormi. Acordei 8h30 e ao abrir os olhos, meus olhos encontraram os do meu irmão. Ele falou, doce como quase sempre costuma falar. Logo surgiram minha prima e uma grande amiga. Sentei na cama devagar. Tinha dormido apenas uma hora e parecia ter dormido uma noite inteira, profundamente. Fui preparada. Só então soube que 6h30 se completou o desligamento, e os médicos falaram com meu irmão e então não me atendiam. Ali, acabava um ciclo e se iniciava outro. Nada acaba e pronto. O fim de alguma coisa é sempre, inexoravelmente, o início de outra. Ironicamente o número da casa para onde me mudei é 19, o contrário da casa onde moramos mais de 20 anos de nossas vidas: 91. Contrário. Oposto. Mudança.

1 Comments:
nossa, amiga, conforme fui lendo esse post tb fui me reportando para aquele dia... lembro como se fosse hoje... eu tava trabalhando e no intervalo dei uma olhada no celular... qd vi que vc tinha me ligado, tive de imediato a sensacao de que algo se passava :/ qd liguei, vc n conseguiu falar cmg... e eu tb n tive coragem de te perguntar diretamente... ai veio um silencio ensurdecedor... segundos que pareceram uma eternidade... ate que a tua prima Lu veio... conversou cmg... e contou... :( fiquei super triste, mas sobretudo HIPER preocupada ctg... tive muita vontade de poder estar ao teu lado "fisicamente" naquele momento... mas, dentro do possivel, tentei me fazer "presente"... para que vc nao se sentisse sozinha de forma alguma... tive vontade de te ligar varias vezes ao longo do dia, mas nao queria te incomodar... a noite, nao aguentei e te liguei de novo... lembra? vc tava na casa da tua prima, acho ate que dormiu la nessa noite... te achei serena... calma... ou seria anestesiada? nao sei... so sei que eu fiquei mais tranquila... pq ao menos vc nao estava sozinha (como eu tinha medo que acontecesse...) E foi assim que o dia 19 passou para mim...
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