Saudade
Sonhava trazê-la sempre comigo. Qdo sonha, transforma em impossível, em distante. Nunca tinha conseguido trabalhar e se manter. Era ela quem fazia isso. Só que já não dava mais, era muito trabalho, e ela não acreditava ser possível também. E também sonhava com o dia em que tudo seria diferente, e que ela seria a dona da casa, sem preocupações outras, e sua filha seria a mantenedora da casa, como também sonhava, e se completariam e seriam felizes. Nunca deixou de imaginar um dia sequer que podia ser assim de fato, desde que se mudou.
De tanto sonhar, nunca conseguiu realizar. Roda mundo e ela consegue porque tem que conseguir. Ou consegue ou morre. Surpreendentemente, até pra ela própria, ela escolhe, sem perceber, continuar, e continua, e até culpa sente por isso, afinal aprendemos que é preciso morrer também, mas não que morrer inclui renascer.
Aos trancos e barrancos ela vai andando, aproveitando pra aprender o que deixou de aprender durante quase 30 anos.
Ela a vê na casa nova. Limpando, cozinhando, vendo a novela da tarde, fazendo o que queria ter tempo pra fazer, cuidando dela pra que trabalhe bem, nesse silêncio cortado por passarinhos e os bichos, alguns que nem conheceu.
Não devemos mais pensar assim, mas há dias em que é inevitável. Dias em que vê que não conseguiu ainda, que ainda falta, que é difícil, que fraqueja, que duvida. Dias em que percebe que dizia a mesma coisa, vai fazer o que? Só sabia fazer aquilo. Podia fazer qq outra coisa! Qq outra! Fácil falar de fora. Agora vê que era fácil falar. Agora que está na mesma situação e pode também fazer qq outra coisa, mas só sabe fazer aquela.
Não souberam realizar o sonho, então foi preciso viver a realidade, separadas. E não chore por isso, não chore, pare de chorar. Leite derramado só pode ser remediado. Ela fez a parte dela, o que devia fazer aqui. Agora é hora de seguir e aprender por sua vez, remediando, remendando. Sem sonhar com o que podia ser a casa nova. Sabendo o que ela é de fato, e sabendo, não sonhando, que ela pode ser melhor.

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