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Sunday, April 19, 2009

A Morte

A morte é fascinante. Todos ficamos parados diante dela, fascinados. O que nos fascina tanto?
Ouvia pessoas conversando, dizendo que "papai estava tranquilo, mas vovó só dps eu tive coragem de olhar". As pessoas, em eventos onde uma pessoa passa a não fazer mais parte, passa a ser como um objeto do qual pode se falar, dizer da aparência, de como era (e como os verbos vão todos pro passado quase automaticamente), começam a lembrar de tantas pessoas, de suas aparências e de suas reações ao vê-las, vira o assunto. Ouço, assisto um pouco assustada com a trivialidade em que transformam esse momento. Do fascínio à trivialidade, do encantamento ao lugar-comum.
Hoje vi um enterro muito triste. 3 pessoas mal se aproximavam de um caixão do qual todos pareciam querer se livrar logo. Ninguém chegou muito perto. Anotavam a localização no cemitério como quem anotava a placa de um carro. Talvez anotando a placa de um carro houvesse mais emoção, afinal normalmente anota-se uma placa por algum motivo desagradável e que desperta emoções, ainda que negativas.
Mal se engavetava mais um corpo inerte, as pessoas diziam tchau aos coveiros. Não ficaram pra ver tudo, não se emocionaram. Pareciam estar cumprindo uma obrigação e se livrando de alguém que dava muito trabalho? Era chato, problemático? Fiquei pensando.
Sempre levo rosas vivas para enfeitar. Acho lindas as rosas de plástico que enfeitam, mas elas são artificiais, não têm vida. Levarei sempre vida pra lá. As flores de plástico não morrem, e como poderia, elas já nascem sem vida.
As pessoas vão caminhando e já retomando a vida normal, falando mal de outros, da família, de como queriam ser mais magras ou mais bonitas. Como se pode fazer isso ao lado de sepulturas e não pensar nem por um segundo que não importa, todos acabarão lá. Tudo que for da natureza, material, a ela será devolvido, e segundo o uso que fizemos, ficará bonito ou não. Dps de lá é outra coisa, outra vida, e tudo segue. Uma das coisas que talvez mais nos fascine seja o fato de, crendo ou não na vida que seguirá, saber que nunca mais poderá se olhar naqueles olhos, apertar aquela mão, abraçar aquele corpo. Nunca mais. Para quem acredita, poder-se-á abraçar um novo corpo, um espírito, mas não mais ver aquele sorriso daquele jeito, com aquele corpo que agora se transforma para se renovar.
Descobri que as pessoas gordas demoram mais a se decompor, e já vi túmulos que vazavam e perguntei, eram pessoas gordas. Fiquei feliz em ser magra, vou logo pro osso e não vai vazar nada, todos poderão me visitar sem medo. É impressionante ver lá todas as pessoas do mesmo jeito, umas ainda piores que outras, dps de uma correria louca e desenfreada por "vencer na vida", por se comprar a casa própria, o carro próprio, por querer tanta coisa que mesmo que vá para o caixão junto com vc, dali não partirá contigo para a vida que se seguirá.

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