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Friday, January 18, 2013

Rotina.

O que me mata mesmo é esse desprezo generalizado. O que dói até o coração físico sentir. É olhar em volta e não ter ninguém, pra nada. Não ter apoio. Família. Amizade. Diversão. Nada. Dias e dias e noites na mesma rotina, só saindo de casa pra ir ao mercado. Não aguento mais ficar aqui. Toda madrugada é assim.

Já acordo 6h sozinha, e, dia sim, dia não, faço a medição da glicemia do meu pai. Aprendi a manejar bem aquele aparelhinho e seus apetrechos. Pego um atenolol e uma hidroclorotiazida e dou pra ele tomar, enqto ele já tá fazendo o café dele. Enqto tomo meu iogurte. "Pai, não esquece do remédio da cartela amarela, 9h." É a fenitoína. Ele não esquece. E eu volto a tentar dormir. Ele fica ativo durante toda manhã, tem seu tempo pra si, arruma suas coisas, lê. Lá pras 11, meio-dia, ele me acorda pra gente pedir o almoço. Ou ir buscar, lá na Nhá Benta. A comida é muito boa. Comemos, dou o AAS e a metformina pra ele, vemos um pouco de jornal e Video Show e dormimos. Às vezes ficamos no quintal sentados ou mexendo nas plantas e vendo os gatos brincarem. Momentos que nunca vou esquecer.

Aí começa Lado a Lado e vemos. Dps o RJTV. Então começa a novela que ele gosta, e eu durmo. Dps o Jornal Nacional. Aí começa a novela que eu gosto e ele vai tomar banho, sozinho, só fico olhando. Coloco álcool 70 nas cicatrizes, apesar de parecer não ser mais necessário. Ele deita na cama dele e coloco Dersani na cicatriz da escara. Nesse meio tempo também tomo banho, nos dias quentes tomava até quando acordava. Ele toma a outra fenitoína do dia. Dps de um tempo ele se ajeita pra dormir. Eu venho pra Internet, lavo roupa, organizo alguma coisa ou durmo. Não tenho pra quem ligar, com quem falar na Internet, percebo essa solidão imensurável, quero sair, não consigo, vai dando uma ansiedade, o sono tb vem vindo, deito e vou dormir.

Pra começar tudo de novo 6h da manhã.

Minhas férias estão passando assim. Voando, aliás.

Veja bem, não estou reclamando. Está sendo bom, estamos conseguindo conviver, estabelecer regras mínimas para que a casa não vire um caos, para que não nos façamos mal, seguindo com a vida. Ninguém disse que seria fácil. Mas achei que fosse ser bem pior.

Ainda assim, carregar essa responsabilidade sozinha tem deixado meus ombros cansados.

E esse desprezo generalizado vem acabar de me pisar, sem dó.

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