Caminhando junto ao vento.
Geralmente quando consigo organizar os pensamentos e quero escrever, não tenho o computador perto, às vezes nem papel. E esse momento fugaz passa e eu me perco toda de novo. Preciso escrever o caminho que fiz pra ganhar tanto amor, deixar rastros como quem passeia na floresta, não como quem anda na beira do mar. Sim, às vezes como quem anda na beira do mar, pq há caminhos que podemos e devemos apagar. É como se eu soubesse de tudo que eu e você e todos nós precisamos para ficar tudo bem. Não quero usar a expressão ser feliz, tá batida demais. Está tudo bem, e estar tudo bem num mundo tão conturbado é no mínimo uma grande bênção. O mínimo que posso fazer para retribuir é não lamentar pelo que pensamos não estar bem. Porque, geralmente, só não está do jeito que a gente quer.
Sendo mais explícita, pra que fique claro pra mim mesma: eu moro sozinha desde que minha mãe partiu pra sua nova vida, há mais de 3 anos. Quem diria? Se nem eu mesma, que dirá os outros? Morar sozinha, pra mim, a partir deste fato, foi um grande desafio, e ainda é. Não escolhi morar só, a vida me disse - vai - e eu fui. Seguindo meus instintos de sobrevivência, minha intuição, fui indo e quando vi tava aqui: viva, sem tantos atropelos, com a sanidade mental que me permite conviver em sociedade, ganhando até um salário razoável pra quem tem a profissão de professora. Pagando as contas, cuidando de uma casa, do meu jeito, devagar, tijolo por tijolo. Há muito que fazer sim, e vou a cada dia conseguindo fazer mais. Me tornei tão independente que não quis ao meu lado alguém que não tolerasse minha liberdade de ser eu. Amar não é isso?
Aí penso se algum dia encontrarei alguém que aguente uma mulher assim. 33 anos, a vontade de fazer a minha família é grande, de ter os meus filhos. Mas seja o que Deus quiser, o que tiver que ser para que eu cresça e melhore sempre mais. Tenho muitos filhos a quem dar o meu amor, e que precisam muito dele: meus alunos, os de hoje e os de amanhã. Os de ontem também. Porque vou chegando perto de realizar sonhos que eram distantes. É incrível poder fazer a diferença, alguma, minha parcela de beija-flor tentando apagar o incêndio. Venham beija-flores, venham todos, todos os beija-flores e andorinhas para que façamos o verão. Eu sei que é possível, porque sinto isso dentro de mim, porque penso, reflito e chego a esta conclusão, porque grandes pensadores e mestres chegaram a ela e só me mostram que não estou no caminho errado. Só preciso aprender esse caminho direito, pra não me perder no meio do dia a dia estafante, exaurida, e enveredar por caminhos que até parecem atalhos, mas nem são. Quando digo aos meus alunos que eles precisam ouvir uma palavra várias vezes para que eles aprendam a dizê-la, digo isso a mim mesma. E tanto pra eles quanto pra mim, digo, através desta metáfora, que é preciso passar pelos caminhos para que aprendamos qual o melhor, qual o nosso. Caí, levo uns tombos sinistros, me quebro toda. Levei um recentemente. A cada vez que isso acontece, eu penso: meu Deus, dessa vez não vai dar. E enquanto isso, não percebo que a cada tombo desses, aprendo a me levantar mais rápido. Choro, xingo, lamento, maldigo. E pronto, cada vez mais rápido aquela dor sai de dentro do peito, e continuo seguindo meu caminho. Fazendo-o ao caminhar, com passos cada vez mais firmes. Às vezes nem tanto, fraquejo. E vejo o tanto de amor que tenho à minha volta. Como isso veio parar ali? Fico impressionada. E feliz. E agradeço. Agradeço cuidando de mim. Ouvi muitas vezes que o maior presente que poderia dar era ficar bem. Tão simples, mas tão difícil de entender. Como demoram a cair as fichas das coisas mais óbvias. Minha missão pode ser simplesmente não ser um peso para os que me rodeiam. Como se simples fosse. E a cada vitória pessoal, me fortaleço, para então poder ajudar os outros a também não serem pesos. E assim, vamos todos pelo caminho da leveza, cada vez mais sustentável, de ser. Para sermos leves, como as bailarinas, os pássaros, as borboletas.

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