Dancing words
Quero escrever. Vontade diária de falar de tudo. Pensar imagens para tantas coisas, palavras que reflitam sentimentos como espelhos, sentimentos que provoquem palavras como beijos provocam... Beijos provocam. Mas falo de beijos. Beijos que se encaixam, que são intensos e apaixonados e então ficam lentos e carinhosos. Olhos fechados, de desejo ou por não querer acordar do sonho bom que é vivê-los. O instante eterno anterior ao encostar dos lábios. O momento mágico do encontro. Beijos causam paz, ansiedade, a incrível sensação de que o tempo pára, o momento mágico de se olhar tão dentro do olho do outro e se ver, e cair lá dentro e se perder. Ou se achar. Buraco negro - o que será? Não saber, mas saber que será, algo será, e acaba sendo, e perceber como seus sentidos tão humanos percebem além da humanidade, sentem além - fantástico. Entrar em sintonia com pessoas especiais, saber, de longe, sem ver, sem falar até. Saber-se. Sempre venho escrever com idéias rondando a mente. Mas há tempos as idéias rondam a mente e perturbam o coração e só. Não se transformam em palavras, não querem virar a poesia com que vejo os momentos de felicidade incontáveis - mas viram movimento poético. Meu vestido roda pra valer, os movimentos ao som de uma música que toque seu coração se tornam muito mais que técnicos. São feitos com paixão. Com uma paixão que os torna tecnicamente belos, com uma técnica que vai ficando no passado, o tempo passa. Mas é só começar, os movimentos fluem, os braços se abrem, as pernas se alongam, a técnica parece aprimorada, a sintonia é. Isso é muito mais do que qualquer palavra possa expressar pelas minhas mãos que sabem muito mais dançar. Colocaria mil poemas e músicas aqui, eles me expressariam, mas queria deixar minhas mãos, minha mente e meu coração se movimentarem, como deixo meu corpo fazer o que quer, como faço o que quero com ele quando danço. Dançar é ser, é existir, é sentir-se vivo e intenso, é expressar o furacão que está dentro, é dar-lhe permissão para sair e ser. Quando dou-lhe esta permissão é incrível, viajo por dentro de mim, à minha volta, vôo, posso voar. Transcendo. Quero escrever de forma poeticamente bela, mas escrever não flui como dançar. Há momentos. Eu nunca sei deles. Estou aqui escrevendo esperando um desses momentos. Eles vêm e vão independente da minha vontade, não tenho o domínio que tenho sobre os movimentos corporais. Mas não é raro que as palavras se entreguem a mim e isso é também maravilhoso. Eu viveria escrevendo e dançando e seria feliz. Mas há sempre um porém. Estou sonhando? Inventando, imaginando, criando ilusões? É tudo mentira, tudo falso e não há poesia, nem amizade, nem transparência? Meu Deus, me sinto tão visível aos olhos que me conhecem, como um espírito que se tente segurar com a mão e sua mão atravessa-o, porque ele é o que se vê. Porque você não precisa tocá-lo para sentir ou entender. Você simplesmente vê. Há pessoas que não consigo ver. Vejo algo que me impede de vê-las, algo que elas colocam, por querer ou não. Me causam uma sensação de não saber, de ingenuidade e inocência. Amo poder ver e busco isso. Até porque me mostro. Não é uma cobrança, é uma troca, ação e reação, lei natural do universo. Mas quantos se mostram da forma que faço? Conseguir ver além desta barreira colocada, conseguir fazer alguém querer mostrar seu verdadeiro infinito é lindo, lindo. Conseguir ver os olhos da alma escondidos pelos olhos humanos é indescritível. É amor. É ir para lugares inimagináveis, situações indizíveis, tão previsíveis a olhos humanos e tão encantadoramente imprevisíveis a olhos poéticos. É maravilhoso não saber, mas é muito mais fascinante saber que o que parece tão previsível não o é, definitivamente. Não é possível que tudo isso que eu vejo seja invenção da minha cabeça. Se for, cairei das nuvens mais altas do céu e morrerei. Meus olhos ficarão vidrados com tamanho choque e você verá meus olhos de vidro se quebrarem irremediavelmente.
Contudo, como a morte não existe.... Você me verá, me reencontrará, para saber que eu não inventei, que eu vivi feliz, que eu acreditei no mundo, no amor, na sinceridade, na fraternidade e que não fui boba ao fazer isso. Você é que foi ao demorar tanto a me seguir. Silêncio. Minha nova casa é silenciosa e isso me permite ouvir que o céu está estrelado com uma lua linda e perturbadora de doer. Não está calor nem frio. Meu quarto me dá essa mesma sensação agradável de aconchego, gosto da minha companhia. Fico bem comigo e isso é primordial para que se possa estar bem com alguém com quem se queira dividir esse silêncio. Talvez esteja chegando a hora, uma hora que me parece tão distante, mas não sei. Eu poderia escrever desta forma desordenada e aparentemente desconexa por horas, até amanhecer. Poderia aguardar o momento que escrever se torna possível através de mim. Muitas vezes aguardo momentos, o que há de mal nisso? Sei que eles serão. Provoco o acaso e eles acontecem. Parece ironia dramática, que sensação de ter o mundo em suas mãos. E ainda que eles não aconteçam, eu só saberei se aguardar. Então aguardo, detesto acordar sem saber o que teria sido.
Cansei. São 1h45 da manhã. Vou me reenergizar no aconchego do meu quarto, ô coisa boa. Ah se viver fosse isso, eu saberia viver.

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