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Friday, May 20, 2005

Desconfortável

Esse jeito apressado e impaciente e ansioso de ser do mundo muito me incomoda. Durante muito tempo estive tentando e tendo que me encaixar. Afinal, todo mundo acorda cedo, pq eu seria diferente? Afinal, tudo mundo faz faculdade em 4 anos, pq eu tenho que fazer em 5? Todo mundo namora, pq eu não? Pq eu tenho que pensar que aquele cara não é o que quero pra mim? Todo mundo pesa mais de 50kg, pq eu não? Pq eu tenho que ser magra num mundo de obesos? Pq eu tenho que questionar qdo não se fazem perguntas?

Esse jeito apressado e impaciente e ansioso de ser do mundo está se refletindo em todos os lugares, pra quem quiser (e PUDER) ver. As pessoas estão escrevendo assim. Pto final? Pra quê? Vírgula, vírgula, vírgula... Conjunções? Faz uma lista dos tópicos mais importantes e pronto. Não precisa ligar as idéias. Traduzir? Tem o google... Informação, a palavra-chave. As pessoas não têm acesso à informação, é o que todo mundo repete mecanicamente. Mas como, se estamos na era da informação?

Eu achava que era ansiosa, mas é esse mundo apressado e impaciente que me deixa assim. A velha conhecida lógica capitalista. O mundo está apressado e impaciente e ansioso na mesma proporção que a velocidade nas fábricas tem que aumentar, junto com a produção, junto com os números da economia. O ritmo capitalista se expande para as vidas humanas. Quase tenho um surto de loucura, pq não consigo acompanhar. Claro, pq como sou A diferente, obviamente sou a Anormal, a que tem dificuldades pra fazer as coisas segundo reza a nossa cartilha invisível.
Durante muito tempo apenas sofri com isso, até me perguntar: mas vem cá, eu tenho que acompanhar?
Os alunos querem tarefas. Vamos fazer exercícios, fill in the gaps, mil deles. Estamos trabalhando não? Ler o texto e pensar? Gasta tempo. Vc tem que ser esperto, perguntou - respondeu. Rápido, rápido, não tenho muito tempo e temos que aproveitar.

Calo-me. Sinto-me cansada. Quero ir dormir. Não quero mais discutir (no bom sentido - aliás, nem no mau). Deixa, vou fazendo o que posso.
Mas nossa, falei isso tudo só pra dizer (e não, não me justificar) que devagar e sempre se vai ao longe. E muita terapia foi necessária pra que eu me sentisse, pelo menos por um instante, tranquila em ser e em agir assim.

Tudo isso pra dizer que estou plantando para o futuro, fazendo tudo com calma e no meu tempo. Os protestos são constantes e apenas um olhar te reprova como se fosse o de Deus.

Não estou feliz, mas estou caminhando. Um passo de cada vez. Apesar de ser olhada com cara de "que garota estranha", tb os olho com cara de "que gente ignorante", o que faz com que o olhar deles se torne nada diante de mim. Não me afeta, não mais. Estou vacinada, de certa forma anestesiada.

Essa semana recebi o meu crachá da Shell, como se eu fosse funcionária de lá. Estou orgulhosa. Posso entrar numa big oil company sem falar com ninguém, a hora que eu quiser. A sensação é boa. Receber esse crachá significa que estou lá tempo suficiente pra ser conhecida e poder recebê-lo. Afinal, não é qq um que transita livremente por lá.

Mas ela me ligou, na hora em que me viro para uma vitrine de roupas femininas. Ela, que é testada constantemente, me testou e descartou (acho que ela tem medo que façam isso com ela - mas não tem o menor pudor em fazer com os outros). Ela pode entrar lá e provavelmente comprar a loja toda. Mas com certeza ela não entraria lá. Não naquela lojinha simples. Eu sim, para talvez comprar uma peça e ainda pensar se não vai faltar dps. Pra contar qto tenho, que é pouco. Mas não produzo muito. Penso demais. E pra isso, a gente ainda não é pago.
Comecei a prática de ensino. É uma coisa onde posso ver claramente cada passo que dou. Estou feliz, estou andando.

6 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Patrícia, você pensou quantas pessoas poderiam ter escrito este texto? De uma maneira ou de outra, muitos de nós estamos sentindo esse mundo "desconfortável". Como se diz: A calma ainda é a melhor solução! Valeu, um grande abraço, Lúcia, do letraecia.

22/5/05 5:59 PM  
Anonymous Anonymous said...

"A lua anda devagar, mas o que é certo é que ela consegue dar a volta ao mundo!"

23/5/05 11:12 AM  
Anonymous Anonymous said...

Eu fico impressionado como vc escreve bem e fico até sem graça, com medo de escrever perante tamanha sabedoria.

Olha, outros dias maravilhosos como o q tivemos virão com certeza! Realmente foi preciso q nos separassemos para q ficassemos mais "afinados"! Estranho isso tb, não acha, mas foi o q aconteceu né! Quando estávamos "juntos" não tínhamos tanta afinidade assim.

Com nossos blogs n flogs fomos nos descobrindo e gostando cada vez mais um do outro! E hj voltamos ao contato pessoal! Espero q, apesar das dificuldades do dia-a-dia, pelo menos volta-e-meia, possamos nos encontrar e nos divertir muito!

Queria deixar um beijo pra Suzana tb em retribuição ao beijo q mandou pra mim, assim como por achá-la uma pessoa muito sábia tb (lendo os coments dela aqui e tb já estive no blog dela naquela vez q vc a indicou). Entaum, Sú (olha a intimidade! rs...), pode ter certeza q farei o q puder e mais um pouco para a Paty ter esses dias sempre felizes! ;-)

Beijos!!!

23/5/05 1:55 PM  
Anonymous Anonymous said...

Paty,
Fico feliz que você esteja feliz...Sei o que é ter que ficar se adaptando à tudo e à todos...O quanto isso cansa num longo prazo e o quanto isso fere quando não conseguimos nos adaptar...
Mas como você disse, terapia tá aí para isso...
Devagar e sempre...
Beijos,
Kel

25/5/05 10:41 AM  
Blogger Dayse Batista said...

Menina (espero que não fiques irritada quando te chamo de menina -- é carinho).

Tenho certeza que estás no lugar errado.

Me sentia como tu.

Chega um momento em que o mundo interno pede e a gente busca no mundo externo exatamente aquilo que nos cabe -- o lugar certo para morar, a sintonia com as pessoas certas, o rumo certo.

Magistral, este teu texto. Muito, muito bom e iluminado. É interessante ver como, no espaço de poucos meses do teu blog, tu vens crescendo.

Estás desabrochando lindamente, Patrícia. E estou adorando ver isso.

BEIJÃO

28/5/05 8:08 PM  
Anonymous Anonymous said...

Muitas e muitas pessoas sentem o que sentes e tentam compreender porque se sentem tão desenquadradas de tudo! Quem dera que todos tivessem calma, como tu; quem dera que todos fizessem terapia, como tu e eu - e já agora que a terapia fosse mais baratinha! :P
É claro que cada um de nós tem uma personalidade que nos molda os actos e limita o olhar e o entender... Mas também é óbvio, como referes, que esta sociedade de consumo rápido nos devora os sentimentos, as vontades... enfim, os nossos instantes - os mesmos de que falaste quando foste à bienal do livro - voam perante tamanho remoinho de princípios capitalistas... é o mundo em que nascemos e vivemos, temos mesmo de nos adaptar a ele e fazer tudo por tudo para não perdermos o nosso carácter! como tu estás a fazer ;)

Beijo, Sara

2/6/05 7:00 AM  

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